Sobre este assunto cafona chamado amor_parte I

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rosas_TNEle tinha este jeito de sorrir que deixava ela feliz por que ela sabia ser um sorriso dado só em ocasiões especiais. Quando ela lhe entregou pela primeira vez o primeiro e depois o segundo filho nos braços. Quando ele deitava na areia depois de tomar um banho de mar, finalmente o mar! Era um sorriso tímido que transbordava felicidade. Os lábios se moviam ao máximo nas horizontais sem mostrar os dentes, só se abrindo nos cantos da boca como gotas deitadas. Ele estava feliz, ela sabia.

Apesar de ele, quantas vezes teria ainda que aturar? Não sabia. Não tinha idéia de quantas milhões de vezes ele já tinha ouvido e ainda ouviria da boca dela as declinações erradas em alemão que pioravam mais ainda quando ela tentava acertar. Apesar de soar como um disco arranhado ou um amargo no doce, ele continuava amando-a. Ele pagou este preço, ele comprou o pacote inteiro de viagem e tá satisfeito. Com surdez, família doida, alemão kaputt, sacanagens ditas no ouvido em uma língua melosa, alterações de humor, ihh, mil coisas…

Apesar de ela, quantas vezes teria ainda que aturar? Não sabia. Não tinha idéia de quantas milhões de vezes ela já tinha ouvido e ainda ouviria da boca dele as mesmas histórias contadas nos inúmeros jantares regados à Gulasch para inúmeros amigos que ofereciam em casa. A diferença entre o alemão e austríaco? O alemão come a carne e deixa o molho. O austríaco come o molho e deixa a carne. E no momento que ele mais uma vez recitava sua mantra para o púlbico, ela sentia lá no fundo que era amor e não sabia explicar como funcionava. Ela admirava sua palestra, os mesmos gestos e as mesmas pausas nas falas. A paciência e o carinho de achar bonito um filme que já viu tantas vezes. Como um isqueiro que sempre acende. Sim, o sentimento está aqui, nunca se apagou. E como o isqueiro, acende sempre uma chama diferente, sem nunca deixar de ser sempre o mesmo isqueiro.

“o que interessa é a duração do amor; não a duração do tipo ‘o amor deve durar para sempre’, mas que o amor inventa uma forma diferente de durar ao longo da vida. Ele nos confronta com uma nova temporalidade – o amor é o duro desejo de durar. O amor é a reinvenção da vida. Reinventar o amor, significa reinventar essa reinvenção.”

Alain Badiou. Elogio ao amor

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