O barulho que vidros de geleia fazem ao entrar em contato com o fundo da lixeira

Eles tinham acabado de discutir. Discussão feia. Grande. Asquerosa. E olha que tava tudo bem, mas, enfim… Ela percebeu que alguma coisa estava fora de ordem enquanto descia as escadas do porão e procurava na dispensa as geleias feitas em verões passados. Quantos verões haviam se passado? Uns dez, ela faz as contas olhando a etiqueta no vidro. Lembrou a vez em que foi à feirinha orgânica e passou todo o dia fabricando o doce com o maior carinho. Desinfetar todos os vidros (limpar o próprio passado de vícios destrutivos?), colher só as boas frutas (jogando fora os pensamentos ruins), tirar os caroços (se entregar por completo à nova relação, sem esconder complexos e feridas), usar uma boa panela de fundo grosso (amar, sim, mas sempre com os pés no chão!), juntar a dose certa de açúcar (não sufocar seu amor, adoçar na medida certa), mexer lentamente (paciência), mexer lentamente (aceitação), até chegar ao ponto certo (acima de tudo: respeito), encher os vidros com os doces (retribuição), com cuidado para não entornar (comedimento), fechar bem direitinho (cuidar bem do seu amor). Agora, sim, podem passar anos. E que passem anos. Mas, depois de anos, ela abriu e viu o que eu vi: a geleia mofou. Acontece, é o acaso das coisas, pensou. Enquanto jogava os potes de geleia mofadas no lixo, pensou na certeza que lhe veio à mente. Acabou. Acontece. Mofou. Enquanto os vidros faziam barulho ao entrar em contato com o fundo da lixeira, ela teve a certeza de que o relacionamento com a pessoa que se encontrava acima dela, caminhando na sala (as tábuas rangendo, reclamando?), tinha acabado.

Circularmente

Ano passado, eu estava me sentindo num túnel sem fim. Esperando e-mails que não chegavam, respostas que não vinham, empregos que não existiam. Me sentindo inútil profissionalmente. Qual o valor de um humano sem um trabalho? Choros. Dúvidas. Incertezas. O que fazer? E foi num dia desses de busca e não encontro, depois de checar os esperados e-mails que não chegaram, que eu olhei para o teto. Olhei. Para os lados. Olhei. Me dirigi meio em transe ao computador, indo direto para o Musikstore. Procurei o “Bolero” de Ravel e coloquei para tocar. Bem alto. Me posicionei no meio vazio da sala de trabalho e comecei a dançar, rodando em círculos, como tinha visto no Teatro Municipal, lá nos anos 80. O ingresso para ver Márcia Haydee era tão caro que meu tio comprou só um, e eu fui sozinha. Ele me esperou do lado de fora. Acho que meu tio estava ali, naquela sala, me vendo dançar em círculos. Como uma louca. Louca? Que nada! Apenas dançava. Sempre. Circularmente. Braços, pernas, cabeça, coração. Música, ritmo, movimento, harmonia. Eu e Ravel e o círculo e o agora. Sempre em direção ao nunca. Circularmente. A música acabou, e os e-mails continuaram sem chegar, e os empregos continuaram na inexistência. Mas eu e Ravel por uma eternidade existimos. Livres. Circularmente.

Sem motivos para escapar

No meio da comemoração de Natal, entre este biscoitinho tá ótimo e adorei os presentes, senti um olhar inquisidor vindo de algum canto. Alguém me observava, e eu procurava saber de onde. Até que achei você olhando pra mim, com um certo ar de Mona Lisa enigmática. Meio deboche, meio seriedade. Ah, então foi isso que você construiu, né, Lina? Me intimava esse olhar. Você, que sonhara tantas coisas e era movida por tantas certezas. Que saiu por aí atrás de seus sonhos, que perdeu o fio da própria meada tantas vezes… Ela me encarava com os olhos de dezesseis anos, me hipnotizava numa viagem entre nunca passado e sempre futuro. Porque o presente é esse átomo infinito que escorrega entre os dedos, que foge no seu olhar. Ah, então foi isso que você construiu, né? Amor, filhos, família, Viena… Eu estou aqui parada um tempão procurando seus olhos, encare-me, encare-se!, você me grita numa impaciência imóvel e imortal, uma inquietude de sempre a mesma. Aceitei a careação e pus-me a te fotografar, você-eu, os dezesseis anos mirando os cinquenta e dois. Um duelo de anseios e cobranças, de sustos e delírios, de confraternização e repulsa, de gozos e sabores. Sem chances de escapar. Como uma foto numa cristaleira, tirada a dez mil quilômetros de distância do lugar de origem, pousada em algum apartamento na cidade de Viena, na segunda década do século vinte. E um encontrando o todo e o tudo do tempo numa noite de Natal. E uma encontrando a outra. Aqui estamos, eu e você, o agora e o nunca, o jamais e o eterno. Sem motivos para escapar.

Eu e você. O jamais e o eterno.

Costurando o amor

A autenticidade do amor não consiste apenas em projetar nossa verdade sobre o outro e, finalmente, ver o outro exclusivamente segundo nossos olhos, mas sim de nos deixar contaminar pela verdade do outro.

Edgar Morin

como se o amor se dedicasse a uma costura, o ponto certeiro, a agulha furando o pano, riscando o ar como foguete para voltar um pouco mais à frente e furá-lo de novo, sempre seguindo, ano após ano, trepada após trepada, filho após filho. olha-se para trás e vê-se uma bainha de vida inteira feita. ora espaçada, torta; ora certinha, lindinha. mas como seria se agora a linha resolvesse arrebentar? e o pano fosse elástico? com um puxão, a costura se esvairia em um fio sem rumo.

ela tinha certeza do amor dele, menos porque ele declarava isso em momentos íntimos, mais porque ele estava ali, presente todos esses anos. porém a vacina de criança lhe surtiu efeito eterno no sistema imunológico emocional. pai morto, padrasto ausente. saiu pra trabalhar e não voltou. um porque morreu, outro porque era assim que tinha que ser. toda a presença de sempre e a confidência dos agoras poderiam se soltar da costura e saírem voando. fio solto.

e ela meteu na cabeça que queria abrir um restaurante.

mas como? você tá louca?

é coisa pequena, comida gostosa, boas cachaças…

e as crianças? e a gente?

ah, a gente se vira. elas já estão grandes…

é muito trabalho, você sabe.

eu sei, mas eu quero.

mas e o tempo? o estresse que tudo isso acarreta?

a gente consegue, eu consigo.

é um risco muito grande, a europa tá em crise.

eu sei, eu sei, mas eu quero…

eu não quero mudar de profissão…

nem precisa, eu quero entrar nessa sozinha.

ela volta e meia falava no assunto. o tempo foi passando, e ele sempre fugia ou a enfrentava com os mesmos argumentos. até que, um dia, ela decidiu colocar o plano em ação. começou a estudar pra prova de concessão. ele deu uma olhada na matéria.

nossa, tudo isto?

é, direitos do trabalhador, prevenção de acidentes, conservação de alimentos, impostos…

bastante coisa, hein?

pois é. mas tenho tempo, a prova é só daqui a um mês.

ele não quis desanimá-la, mas achou que seria bem difícil ela passar nessa prova.

no dia seguinte, ele voltou de um encontro de trabalho empolgado.

passei pela rua tal e vi isto aqui. ele mostra as fotos no celular.

um local pra alugar. o que você acha?

vitrines empoeiradas, localização duvidosa. ela passou os olhos rapidamente pelas fotos e olhou longamente pra ele. sorriu.

você gostou?

sim, legal.

ela mentiu. nem o espaço nem a localização eram adequados. mas estava imensamente feliz. lembrou a cena do leaving las vegas em que a namorada dá de presente a um nicolas cage alcoólatra uma garrafinha de metal pra encher de bebida, e, no filme, o cara se emociona muito com o gesto.

naquele momento, ela percebeu que era mesmo amor o que ele sentia. uma foto de vitrines empoeiradas deu a ela toda a dimensão do sentimento que ela já tinha recebido, mas não sabia bem interiorizar. a vacina perdeu a validade.

a linha termina uma bainha, a agulha fura o ar e, antes de penetrar novamente no tecido, pirueta-se em si mesma, entrando no “O” feito do próprio corpo. fura, volta, mais uma autopirueta, “O” adentro. arremate. Agora. sim, o fio – esse pedaço que resta para fora da costura – pode se despedir do pano… 

O amor é a percepção extremamente difícil de que algo além de nós é real.

Iris Murdoch

O sexo é consumo. O sentimento é invenção contínua.
O amor é a verdadeira revolução.

Alain Badiou