De uma metamorfose ambulante

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seiosAí você ajuda a organizar um coletivo de mulheres brasileiras para se auto apoiarem nesta selva de austro-patriarcalismo, estereótipos enraizados e vagões de metrô fedorentos de suor humano. Aí a conterrânea conta toda indignada que „este povo que vai pras piscinas no verão e depois não tomam banho, vão pra casa com corpos e cabelos impregnados de cloro de uma piscina usada por milhões de cidadãos e só se lavam na próxima ducha que sabe-se lá quando será, né?“. E você ouve séria, atenta. Todas riem, você acaba rindo também. Aí você tenta alegar que tem um ótimo método que te fez chegar na metade do caminho da velada adaptação aos costumes locais e quer abrir a boca pra contar sobre a reconciliação austrus e brasus numa tentativa utópica de oferecer a solução para estes dois mundos. E quer formar as palavras na língua, na tua língua ainda por cima, pra dizer um “eu tomo uma ducha daquelas que ficam em volta da piscina pra tirar o cloro”. Mas daí antes de soltar a tua frase -por si convicta e conciliadora- você olha em volta e vê aquelas caras alegres, aquele frescor de recém-chegadas, aquela toda linguagem enraizada em costumes por você mesma tornados tão distantes e esquisitos, aí pensa, não, melhor não, não vou pagar este mico, vai que elas perguntam sobre o sabonete, vou ter que mentir? Elas não vão entender a minha fórmula, vão pensar que eu sou suja e não é bem assim, é que eu sou… eu sou…e aí te faltam palavras na própria língua pra expressar o que você mesma não assume. Eu sou um ser híbrido em estado mutante.

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Foto do meio: Literaturhaus Wien, Instalação da escritora Friedrike Mayröcker

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