Três vezes trazida

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Email -- 0 Flares ×

img_3180_thumbTrazida ganso
Eu tinha acabado de chegar. Um frio, um vento, um cinza da porra no céu. Era só olhar para cima e me sentir de novo em casa. Um céu paulista. Ele todo animado querendo me ensinar Viena. No caminho para a mãe dele, foi me explicando sobre os gansos e a tradição de se comer o bicho por causa de um tal de Martin, um santo sei lá das quantas. Passamos por paisagens pálidas de um outono quase finado. Chegando lá estavam todos arrumados e eufóricos como se fosse natal. Vieram aqueles mil acompanhamentos, lentilhas, couve roxa, uma bola branca grande esquisita. A mãe dele no maior estress. Sai da frente! Ela pousa no meio da mesa um animal moreno escuro e esfumaçado. De dentro do bicho sai as castanhas e maças misturadas com pedaços de pães e as entranhas do ganso. Uma coisa divina. A lareira acesa, o vinho tinto encorpado. Os familiares rindo e falando um depois do outro. Tudo se encaixava naquela cena, menos eu, o corpo estranho. Nada entendia, tudo cheirava e via. Eu no mundo estranho que de tão estrangeiro se é confidente. A mesma linguagem família, what ever you are. Eles exigiram espaço no meu organismo, chegaram assim chegando. O calor da madeira se despedaçando em chamas aquecia meus presságios de uma vida indefinida. E acima de tudo sentia que a partir deste agora eu não teria mais volta de tudo o que eu teria sido. Eu digerida numa mistura de surpresa, gratidão e maravilhamento. Eu, ganso. O animal ocupou meu estômago e vísceras, quebrou moléculas e paradigmas, dilacerou certezas e impulsividades, e totalmente rendida, submeti-me ao desconhecido e confiável mundo que à minha frente pairava.

Trazida frio
Eu tinha acabado de chegar. Nem queria vir nesta época, um calor do cão. Eu que já estava cheia de calor. A vida inteira suando sobre o sol do Maranhão, correndo atrás de técnico pra consertar o ar, entrando em bancos só pra poder respirar… Mas ele insistiu. Não, dezembro não, nem outubro, vem em julho. Não tinha explicado porquê. Achei esquisito. Pedi demissão antecipada do hospital, meus pacientes chorando, meus colegas de trabalho organizaram uma baita festa, aluguei o consultório e vim. Bom ,fui, tô aqui, cheguei!  37 graus. Você tem certeza que Viena é aqui mesmo? Claro, olha aí o Schönnbrünn! Aturei o calorzão, doida pra chegar logo o inverno. Inverno este que deu as caras sem pedir licença no meio do verão. De repente, em pleno Julho a temperatura despencou para 10 graus. Uma chuva fina, um vento nojento. Eu toda atolada, jogava um casaco por cima da minha pele e ele ria. Não Schatz*, primeiro uma camiseta de baixo, depois uma blusa de manga comprida, depois um pulover e por cima um casaco. Caralho, melhor ficar aqui mesmo debaixo das cobertas! Ele me lançou um olhar de compaixão mas nada falou. No mesmo dia voltou do trabalho todo contente. Marquei nosso casamento! Semana que vem! Nossa, mas já? Pra quê tanta pressa? De novo ele não me deu explicações. Só falou por acaso que tinha lido que o tempo melhoraria, o que realmente aconteceu. Casamos num dia lindo de fim de verão. Eu num vestido de tirinhas e generoso decote traseiro. Ele suando dentro de um terno. O primeiro outono veio lindo e dourado. O primeiro  inverno veio azul e gelado. Pavor! Eu me agarrava no aquecedor e só sai de perto do aparelho pra ir ao banheiro. O aprendizado foi doloroso, mil casacos para mil temperaturas, atenção aos materiais, Daunen esquenta, couro esquece, nylon só te trai. A neve se misturava às minhas lágrimas enquanto meus pés congelavam. Sapato errado de novo. Aprenderei? Nunca! Fiz curso de alemão, aprendi que feminino vira masculino quando se torna objeto indireto, validei meu diploma, aprendi a sorrir ao ar livre sem mostrar os dentes, engravidei, aprendi à ficar séria e imóvel no metrô pra combinar com os outros, pari, aprendi a ser mais rápida do que a caixa do supermercado pra recolher minhas compras, abri meu consultório, aprendi a reivindicar  minha vez na confusão sem fila para ser atendida na padaria. Mas não aprendi o frio. Comemoramos dez anos de bodas no mesmo restaurante que casamos. O jardim do local enfeitado pela luz do sol, flores e toalhas brancas. Eu suando num pulover de Mohair. Mas o termômetro tava marcando quinze graus! Ele prendeu o riso, desviou os olhares para as árvores que nos circundavam, as folhas que quase se intrometiam na nossa conversa, minha testa brilhando de suor, até que me olhou nos olhos e finalmente me confessou. Aquela pressa toda para casar era porque eu morria de medo de você não aguentar o inverno e ir embora. Encheu nossas taças de champagne e agora já aliviado pelos anos juntos solidados, abriu um sorriso largo e sarcástico. Prost!

Trazida? nunca!
Eu tinha acabado de chegar. Era frio e neve e eu achando tudo lindo! Os cafés, os monumentos, as pessoas educadas. Ele me levou pra casa dele, trepamos, acordei e olhei ao redor. O homem que eu comi várias vezes no “Motel Barra Beira Mar” agora se mostra em forma de Móveis, tapetes, quadros. A louça era de uma fábrica famosa, tradicional. O quadro era de um pintor nacional, famoso internacionalmente. A vista era nada menos do que a catedral do tal Santo Stefan. Tudo quadrado e limpo e estéril. E Branco, e preto e cinza. Amanhã hora marcada pra conhecer a mãe dele. Sei não, sei não. “Não faça assim, não faça nada por mim, não vá pensando que eu sou seu.” Fomos passear na avenida principal, era véspera de natal, as lojas fechadas, a neve caindo em ritmo adagio, as pessoas andando devagar… Andando? Não, elas valsavam pelas pedras da rua sem carros que se doava inteira para os pés humanos. Pés que não tinham nenhuma pressa. Estamos nos prósperos anos 90, é véspera de natal, não há urgência de ser. Ela rodopiou embaixo dos lustres gigantescos da decoração natalina, cheiro de castanhas torradas. Tentou copiar passos alheios, olhava para a frente e para os lados, nunca para ele. Ele sentiu ela já nascendo, se afastando no ritmo e olhares, querendo um mundo só dela. Lembrei da teoria que afirma ser necessário dez mil horas para se tornar especialista em algo. Nada cai do céu, neve cai do céu. Ela segurou ele pelos braços, apertou-os. Beijo. Eu vou dar um rolé por aí. Mas…Não se preocupe, eu sei aonde você mora. Ela solta-o e avança pela rua. Posso ir junto? Não, por favor, não. Ela andava de costas, os olhos ainda fixos nele. Quantas horas você precisa? Ela já estava longe. Ele não ouviu minha resposta, tive que gritar. Dez mil horas! Ele agora já era uma pequena silhueta entre tantas outras valsantes. Virei-me e segui. Voltei nunca. Dez mil horas! Outro dia numa vitrine vi as tais procelanas.

img_3180_lo2

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>